O Brasil caminha para encerrar a safra 2025/2026 com uma produção recorde de cerca de 360 milhões de toneladas de grãos, mas o avanço da produtividade não resolveu gargalos que reduzem a competitividade do agronegócio. Juros altos, dificuldade de acesso ao crédito, falta de armazenagem e custos de transporte corroem parte da renda dos produtores e diminuem a vantagem da soja brasileira diante de concorrentes como os Estados Unidos.
O problema fica evidente em Mato Grosso, principal estado produtor de soja do País. Em uma propriedade de pouco mais de mil hectares em Sinop, o produtor rural Evandro Pellenz cultiva milho e soja e destina 80% da produção à China.
Segundo Pellenz, as condições climáticas têm permitido bons resultados na região. “A cada ano que se passa, a gente vem conseguindo produtividades boas, produtividades recordes”, afirmou.
O cenário se repete no restante do País. A safra 2025/2026 deve atingir aproximadamente 360 milhões de toneladas, estabelecendo um novo recorde. A produção brasileira cresceu significativamente nas últimas quatro décadas, com aumento da quantidade de grãos produzida por hectare.
O avanço dentro das propriedades, porém, não foi acompanhado no mesmo ritmo fora delas. Juros elevados encarecem o crédito, enquanto a menor disponibilidade de financiamento pode atrasar o plantio e reduzir os investimentos em tecnologia.
A falta de espaço para armazenagem também obriga parte dos produtores a vender no pico da colheita, quando os preços estão pressionados pela maior oferta.
Somado ao custo do transporte, esse cenário aumenta o risco de inadimplência e de pedidos de recuperação judicial no agronegócio.
“Se esse risco atinge a produção de alimento, nós estamos falando da redução da segurança alimentar, da queda da nossa capacidade de exportação, da inflação de alimentos na gôndola dos supermercados, do desemprego e da fragilização dessa máquina que alimenta o interior do Brasil”, afirmou Daniel Vargas, advogado e especialista em agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Transporte elimina vantagem da soja brasileira
Um dos principais gargalos aparece na comparação com os Estados Unidos. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), transportar uma tonelada de grãos de Sinop até Xangai, na China, custa US$ 138,50, considerando o trecho rodoviário até o porto.
Para uma carga que parte de Davenport, no estado americano de Iowa, com o mesmo destino final, o custo é de US$ 103,05 por tonelada.
A diferença chega a US$ 35,45 por tonelada. Na produção, a soja brasileira é mais barata do que a americana, mas o custo para transportar o produto até o embarque elimina essa vantagem.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a dependência do mercado chinês. A China é o principal destino da soja brasileira e tem papel decisivo no desempenho das exportações do grão.
Patricia Ellen, CEO da Systemiq na América Latina, alerta que mudanças nos hábitos de consumo e nas políticas chinesas podem provocar uma redução de até 25% nas exportações brasileiras de soja para o país asiático.
Agro busca novos mercados e produtos
Diante desse cenário, especialistas defendem que o Brasil diversifique os destinos das exportações, com mercados como Índia e países da União Europeia, e amplie a industrialização da produção.
O professor emérito da FGV Roberto Rodrigues aponta o biodiesel como uma das alternativas. Segundo ele, em vez de concentrar as exportações no grão, o país pode agregar valor e comercializar produtos como farelo, óleo, carnes produzidas a partir da alimentação animal e combustível renovável.
A estratégia também ganha importância diante da concorrência internacional. A soja brasileira mantém forte presença no mercado externo, mas enfrenta países que também adotam políticas para proteger seus próprios produtores.
“Nenhuma potência mundial, nenhuma grande potência faz isso. Então, cabe a nós criar as condições de sermos indispensáveis”, afirmou Marcello Brito, diretor da Fundação Dom Cabral (FDC).