A economia circular está na moda. Ainda mais quando vem acompanhada de solidariedade com crianças em situação de vulnerabilidade. Esse é o foco de um trabalho social realizado pela equipe da Creche Vovó Meca, projeto da Unificação Kardecista de Ribeirão Preto. São 80 crianças atendidas em período integral, anualmente. Muitas se beneficiam de roupinhas produzidas por voluntários a partir da doação de uniformes de empresas, em bom estado, para reaproveitamento.
O Sicoob Cooperac, cooperativa financeira fundada em Ribeirão Preto há 20 anos, está entre as empresas que contribuem com a iniciativa. Dezenas de camisetas foram caprichosamente transformadas em shorts, reutilizando tecido, botões e elementos decorativos. Mariangela Papa Guimarães, presidente da Kardecista, destaca que são atendidas famílias de 12 bairros da zona norte, regiões em que as ações de sustentabilidade, responsabilidade social e amor ao próximo são especialmente importantes.
“Cada peça doada representa muito mais do que um simples material. Tornou-se oportunidade de cuidado, conforto e bem-estar para as crianças atendidas por nossa instituição. A transformação dessas roupas demonstra como pequenas atitudes podem gerar grandes impactos na vida de quem mais precisa”, relata a presidente.
Outras empresas também doam, mas a demanda é crescente. Até mesmo abrigos de frio podem ser reutilizados. Somente na creche, desde a abertura na década de 1980, mais de 3.000 crianças já foram atendidas com cuidados, aprendizagem, alimentação e lições de vida. “Estamos treinando novos voluntários para esse trabalho que não pode parar e precisa ser ampliado, a carência é grande”, completa a presidente.
Dados alarmantes
Ribeirão Preto possui aproximadamente 110 comunidades (favelas) mapeadas por organizações de moradia locais, abrigando cerca de 40 mil pessoas. Dados oficiais do Censo 2022 do IBGE contabilizam 23.781 moradores vivendo nessas áreas, o que representa aumento de 68% em relação a 2010, multiplicando a falta de assistência básica.
O problema ambiental também é um desafio coletivo gigante, reforçando a necessidade de incentivo para ações sociais de reciclagem. Nesse cenário, o lixo têxtil está entre os resíduos que menos possui controle estruturado de descarte. Dados da consultoria internacional S2F Partners, especializada em gestão de resíduos e economia circular, mostram que os domicílios brasileiros descartam cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis a cada ano. Cada residência descartou, na média, 44 kg de roupas e calçados em 2024.
O Jornal da USP publicou reportagem destacando que, em Ribeirão Preto, o lixo têxtil compõe cerca de 5,6% das 550 toneladas de resíduos gerados diariamente na cidade. O descarte de roupas e calçados reflete a média nacional, que gira em torno de 44 quilos descartados por domicílio a cada ano.
Para Amanda de Oliveira, Diretora Administrativa do Sicoob Cooperac, a participação da cooperativa nessa iniciativa está alinhada aos princípios do cooperativismo, que incentivam o interesse pela comunidade e a construção de relações mais próximas com as pessoas. "Ver o resultado dessa ação nos mostra que a cooperação vai muito além dos serviços financeiros. Demonstra como a união entre instituições pode gerar impacto positivo, reduzir desperdícios e levar mais dignidade a quem precisa. São iniciativas como essa que reforçam nosso compromisso com as pessoas e com a construção de comunidades mais sustentáveis e solidárias", finaliza.