A Polícia Federal investiga o delegado José Navas Júnior por suspeita de violação de sigilo funcional, corrupção passiva e favorecimento a uma organização criminosa ligada ao contrabando de cigarros e exploração de trabalho análogo à escravidão em São Paulo.
Especialista em contrainteligência, combate à lavagem de dinheiro e segurança da informação, o policial atuava na delegacia da PF em Marília, no interior paulista. Ele foi afastado das funções públicas após determinação judicial.
A corporação solicitou a prisão preventiva do servidor, mas o pedido acabou negado pela Justiça Federal. Como alternativa, o magistrado responsável determinou medidas cautelares, incluindo a apreensão da arma institucional, a retenção do passaporte e a proibição de deixar o município por mais de oito dias sem autorização prévia.
Auditoria interna e repasses financeiros suspeitos
A apuração começou a partir de uma auditoria no sistema ePol, plataforma digital utilizada pela corporação para tramitação e controle de inquéritos sigilosos. O levantamento identificou acessos indevidos a investigações em andamento.
Em novembro de 2023 o delegado realizou 13 pesquisas no sistema horas antes de uma operação contra o comércio ilegal de cigarros ser deflagrada. Navas Júnior não integrava a equipe encarregada daquela ação de campo.
Relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) reuniram 65 comunicações e 35 operações financeiras suspeitas envolvendo o policial, a esposa dele e empresários do setor tabagista entre 2022 e 2025. Os documentos apontam 60 transferências bancárias suspeitas realizadas por um empresário do ramo de cigarros, ex-sócio do delegado, que totalizam R$ 770.806,00 em repasses diretos.
Atuação em contrainteligência e medidas judiciais
Com trajetória na Polícia Federal iniciada em 2003, Navas Júnior construiu carreira com foco em crimes cibernéticos, auditorias digitais e espionagem institucional. Em postagens públicas, o delegado costumava enfatizar a formação jurídica e os procedimentos de investigação social exigidos pela carreira pública.
Os investigadores apontam que o conhecimento técnico em informática e o acesso administrativo facilitaram a obtenção de dados estratégicos sobre mandados de busca e apreensão que seriam cumpridos contra fábricas clandestinas. A equipe de reportagem não conseguiu contato com a defesa do delegado investigado.