Dama da teledramaturgia brasileira, Laura Cardoso não tinha medo de inovar, nem de fazer cenas marcantes. Na penúltima novela da carreira, a atriz, que morreu aos 98 anos nesta terça-feira (18), fez história com a despedida da personagem Caetana em "O Outro Lado do Paraíso".
Na novela, Laura Cardoso interpretava uma dona do bordel de Pedra Santa, cidade fictícia da obra. A personagem fazia parte da trama de segredos que guardava dos vilões da novela e ajudava Clara (Bianca Bin), na vingança contra Sophia (Marieta Severo).
Mas foi a última cena de Laura Cardoso na novela que marcou o público. A cafetina, debilitada e acamada, recebeu a visita e a bênção da sensitiva Mercedes (Fernanda Montenegro), com quem fez as pazes. Ela morreu dentro do bordel, cercada pelas prostitutas após cumprir a própria missão.
O velório, repleto de emoção, terminou com as personagens decidindo homenagear Caetana com muita música e dança. Ao som de "K.O", de Pabllo Vittar, Laura Cardoso partia para o além dançando e sorrindo. A cantora, inclusive, participa da cena e canta e dança em um pole dance. Relembre a cena:
Relembre a carreira de Laura Cardoso
Nascida Laurinda de Jesus Balleroni, Laura Cardoso foi conhecida como dama da dramaturgia brasileira e pioneira da televisão. A artista começou a atuar ainda aos 15 anos, em radionovelas. Na televisão, Laura Cardoso estreou em 1952, com 25 anos, na TV Tupi.
Na emissora, Laura Cardoso atuou em teleteatro, uma versão um pouco diferente das novelas que conhecemos, apenas com adaptação de peças para a TV. Depois, ela entrou de vez no mundo das telenovelas, com a obra "Tribunal do Coração". Entre os anos 50 e 60, Laura ainda atuou em outros programas, como o "TV de Vanguarda", "TV de Comédia" e "O Grande Teatro Tupi".
Após a passagem estrelada na TV Tupi, Laura Cardoso trabalhou na Band. Ela foi uma das protagonistas de "Os Miseráveis", escrita por Walther Negrão, em 1967. NA volta para a Tupi, ela esteve no elenco da primeira novela bíblica brasileira, "O Rouxinol de Galiléia", como Maria, mãe de Jesus Cristo.
Laura ainda passou pela Record onde atuou como "A Última Testemunha" e em "Algemas de Ouro". Nos anos 70, Laura Cardoso se tornou figura frequente nas novelas, trabalhando em pelo menos 10 novelas e ganhando o APCA de Melhor Atriz de Televisão em "Os Apóstolos de Judas".
Além de pioneira, Laura foi recordista: trabalhou em mais de 60 novelas, sendo "A Dona do Pedaço" a última da carreira, em 2019. Mas para além da TV, a atriz também foi um grande nome do teatro: ela atuou entre 1944 e 2023 em diversas peças, tendo até se afastado da TV para se dedicar à arte.
Entre 1981 e 1983, Laura Cardoso atuou em "Brilhante", na TV Globo e nas novelas "Ninho da Serpente" e "Renúncia", na tela da Band. Ao retornar para a emissora do Rio de Janeiro, a atriz ganhou personagens que marcaram a memória dos brasileiros apaixonados por novelas.
Ela esteve em obras como "Fera Radical", "Rainha da Sucata", "Felicidade" e "Mulheres de Areia", onde foi Isaura, a mãe de Ruth e Raquel. Nos anos 90, Laura se consagrou em "A Viagem", de Ivani Ribeiro, atuando como Guiomar, mulher atormentada por Alexandre (Guilherme Fontes).
Entre 2000 e 2010, Laura Cardoso se fincou como uma das damas da teledramaturgia brasileira. Ao longo das décadas, Laura Cardoso colecionou indicações e prêmios pelas atuações na TV, teatro e cinema. Foram cinco troféus APCA, prêmio Oscarito, do Festival de Gramado pela contribuição ao cinema nacional e em 2006 foi laureada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a Ordem do Mérito Cultural.
Incansável, Laura trabalhou até os 97 anos. O último papel de Laura Cardoso foi no curta-metragem “Dona Rosinha”, filme sobre abandono de idosos que também é estrelado por Bianca Comparato.