O Brasil enfrenta uma crise crescente de saúde pública impulsionada pelo aumento exponencial da frota de motocicletas, que cresceu 42% entre 2015 e 2024, ultrapassando a marca de 37 milhões de veículos circulando pelo país.
Por trás desses números, esconde-se uma estatística alarmante de milhares de jovens com sequelas graves, que sobrecarregam o sistema de saúde e enfrentam anos de reabilitação na tentativa de recuperar a funcionalidade e retornar ao mercado de trabalho.
No Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro, a rotina é marcada por cirurgias complexas para tratar lesões típicas de quedas de moto, como a fratura de acetábulo (região do quadril), causada pelo forte impacto lateral.
Profissionais da unidade relatam que os acidentes não só aumentaram em volume, como também em gravidade, o que afeta diretamente os bancos de sangue e obriga, em casos críticos, a suspensão de cirurgias eletivas para priorizar emergências de trânsito.
Perfil das vítimas e impacto no SUS
Os dados revelam a magnitude do problema: apenas nos dois primeiros meses deste ano, o trânsito brasileiro gerou 47 mil atendimentos por acidentes de moto, resultando em 28 mil internações no Sistema Único de Saúde (SUS). Em todo o ano de 2023, foram mais de 290 mil atendimentos e 173 mil internações.
O perfil predominante das vítimas é de homens entre 20 e 39 anos. Essa parcela da população, composta por adultos jovens em idade produtiva, muitas vezes fica incapacitada de exercer suas funções na sociedade por longos períodos.
Especialistas apontam que o cenário é agravado por dois fatores: o incentivo ao consumo de motos via financiamentos e isenções de impostos, e a expansão das plataformas de transporte de passageiros. Com o uso de motos para transporte de terceiros, o risco de vítimas aumenta, envolvendo no mínimo duas pessoas em cada ocorrência.
O desafio da recuperação
Para muitos sobreviventes, o caminho para a recuperação é longo e doloroso. É o caso de Pedro Vinicius Siqueira Júnior, morador de Itaperuna (RJ), que enfrenta 10 horas de estrada a cada 15 dias para realizar fisioterapia e terapia ocupacional no Rio de Janeiro. Seis anos após o acidente que mudou sua vida, Pedro ainda mantém o sonho de voltar ao mercado de trabalho.
"Não estou querendo mais ficar encostado", afirma o jovem, que antes do acidente estava prestes a iniciar um emprego como motorista. O sorriso no rosto durante o tratamento reflete a esperança de milhares que, como ele, lutam para superar as marcas de uma epidemia invisível sobre duas rodas.