Membros do Congresso dos Estados Unidos enviaram nesta quinta-feira (22) uma carta ao CEO da Meta, Mark Zuckerberg, pedindo explicações sobre a atuação da empresa no Brasil durante o período eleitoral. A manifestação acontece dois dias depois de cinco organizações solicitarem que o Congresso americano abra uma investigação contra a Meta para apurar se a empresa está interferindo nas eleições brasileiras.
Os parlamentares exigem uma resposta por escrito da empresa até 4 de novembro e pedem uma reunião imediata. Entre os tópicos que requerem respostas estão as instruções de moderação de conteúdo em eleições estrangeiras, comunicações com o governo dos EUA, confirmação das falhas internas, detalhes sobre as 17 iniciativas tomadas para cumprir as ordens do TSE e a possibilidade de auditoria independente.
Os 13 signatários, incluindo nomes como Bernie Sanders e Pramila Jayapal, demonstram preocupação com a isonomia da empresa durante as eleições no Brasil e pedem responsabilização das redes sociais em garantir tratamento igual aos candidatos.
"Em eleições democráticas, cabe às empresas de redes sociais garantir que os candidatos recebam tratamento e acesso equitativos em relação à distribuição, moderação e recomendação de conteúdos relacionados à campanha em suas plataformas", diz a abertura da carta.
"Estamos, portanto, profundamente preocupados com relatos credíveis de que as plataformas da Meta estão restringindo ou suprimindo conteúdos associados à campanha de Lula, enquanto amplificam ou recomendam conteúdos associados à campanha de Bolsonaro, criando assim condições visivelmente desiguais no ambiente digital." "No entanto, testes de acompanhamento produziram resultados mistos: alguns pedidos envolvendo ambos os candidatos foram recusados, enquanto outros testes continuaram a identificar inconsistências ou lacunas quando variações dos nomes dos candidatos foram utilizadas. Essas descobertas justificam maior transparência sobre como as salvaguardas da Meta são projetadas, testadas e aplicadas entre candidatos e pontos de vista políticos." Os questionamentos engrossam as mobilizações de instituições brasileiras. O TSE também havia pedido explicações sobre uma possível desigualdade entre os candidatos. A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também protocolou uma ação que pede a cassação da chapa de Flávio Bolsonaro (PL), alegando que a Meta favoreceu a campanha do adversário. A Meta nega. Paulo Abrão, doutor em direito e atual diretor executivo do Washington Brazil Office, uma das organizações que realizou o apelo ao Congresso norte-americano, diz que a atuação da Meta nas eleições do Brasil têm sido rechaçada dentro dos Estados Unidos, além de reforçar que a carta não é um pedido de intervenção do país. "Não é o Congresso americano interferindo na eleição brasileira, mas parlamentares norte-americanos cobrando explicações de uma empresa americana sobre decisões tecnológicas que podem afetar a igualdade de condições entre candidatos em outra democracia", explica. "O princípio democrático é simples: uma empresa privada não pode exercer um poder invisível sobre as condições da competição eleitoral. A soberania democrática de um país também precisa ser respeitada no ambiente digital", conclui o especialista. Congresso dos EUA questiona Meta sobre intervenção”
Os congressistas pedem explicação sobre diversos episódios ocorridos durante a campanha eleitoral, como a "desativação temporária e sem explicações claras da conta de anúncios do Facebook da campanha de Lula em setembro de 2026" e os "bloqueios que impediram a campanha de Lula de impulsionar anúncios no Instagram por quase 24 horas em outubro, afetando o alcance de cerca de 1,3 milhão de pessoas".
Ainda questionam Zuckerberg sobre as comunicações internas da Meta, em que funcionários apontam ter conhecimento de recomendações algorítmicas que promoviam com vantagem o perfil de Flávio Bolsonaro, o que seria proibido pelo TSE.
Também usam relatos de organizações e jornalistas que apontam moderação inconsistente que "afetava majoritariamente contas pró-Lula", além de falhas na Meta AI ao gerar conteúdos de apoio a Bolsonaro e vetar o mesmo tipo de conteúdo para Lula.
O documento também menciona a multa aplicada pelo TSE a Meta e a ordem por tratamento igualitário entre os candidatos, dobrando a multa posteriormente devido à falta de conformidade, o que levou a Meta a anunciar medidas e revisões manuais.
Congresso questiona envolvimento de Trump
Entre os questionamentos enviados para Zuckerberg está uma pergunta sobre se a Meta manteve comunicação com o Governo Trump relacionadas "ao poder judiciário brasileiro, aos esforços ou propostas de regulamentação do governo brasileiro, às eleições brasileiras de 2026 ou à política dos EUA em relação ao Brasil".
Se a resposta for afirmativa, os congressistas pedem a divulgação do conteúdo das conversas, incluindo "registro de reuniões, telefonemas, e-mails, mensagens de texto ou cartas".
"Isso não comprova qualquer articulação política, mas coloca sob escrutínio a possível relação entre interesses governamentais, poder das grandes empresas de tecnologia e soberania eleitoral brasileira", explica Paulo Abrão.
Os congressistas também questionam:
- Como funcionários da Meta foram instruídos para realizar a moderação de conteúdo em eleições estrangeiras, incluindo o Brasil;
- Pedem a confirmação de que funcionários da Meta sabiam do tratamento diferenciado;
- Quais são as 17 iniciativas tomadas pela Meta para cumprir as ordens do TSE e se a empresa adotará as mesmas normas em eleições pendentes;
- De que maneira a Meta vai supervisionar, implementar e cumprir a regra de revisão manual em até duas horas para restrições automáticas nas contas das campanhas;
- Se a empresa vai permitir que um auditor independente acesse dados internos de moderação e distribuição de conteúdo político no Brasil para verificar a equidade de tratamento entre os candidatos.
O advogado explica que, em relação à realização do segundo turno neste domingo (25), o efeito dos questionamentos dos parlamentares norte-americanos "pode ser preventivo" por aumentar a pressão por correções verificáveis e pelo cumprimento das decisões do TSE. "No longo prazo, porém, está em jogo algo ainda maior: a possibilidade de submeter os sistemas de moderação, recomendação algorítmica e publicidade política a mecanismos efetivos de transparência, auditoria independente e responsabilização", explica.