A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou a probabilidade de o fenômeno El Niño atingir a categoria "muito forte" nos próximos meses, o que acende o alerta para o agro brasileiro. A intensificação do evento climático coincide com o período decisivo de plantio e desenvolvimento da safra nacional de grãos, prevista para ter início em setembro em algumas regiões.
O El Niño decorre do aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial, alterando os padrões de temperatura e circulação de umidade em escala global. No território brasileiro, o fenômeno costuma gerar risco de estiagem em áreas produtoras do Centro-Norte e chuvas excessivas no Sul, trazendo preocupação para o campo.
Segundo as projeções atualizadas da NOAA, o El Niño apresenta 93% de chance de alcançar a classificação de "muito forte" entre os meses de setembro e novembro. Para o trimestre compreendido entre outubro e dezembro, a probabilidade avança para 95%.
O relatório técnico do órgão norte-americano aponta ainda que há 69% de chances de o evento registrar a maior intensidade desde 1950, período em que a instituição iniciou a série histórica de monitoramento das temperaturas oceânicas.
Entre as principais nações exportadoras de commodities agrícolas, o Brasil figura entre as áreas de maior vulnerabilidade. A possibilidade de estiagem coincide justamente com a janela em que os produtores realizam o plantio de soja e milho. A falta de umidade regular durante a fase inicial de desenvolvimento das plantas pode comprometer o rendimento das lavouras e reduzir o potencial produtivo da temporada.
Em contrapartida, as projeções para os Estados Unidos indicam um cenário favorável. No país norte-americano, a atuação do El Niño costuma elevar os volumes de precipitação, fator que tende a beneficiar os ciclos agrícolas locais e assegurar boas condições de colheita.
Em avaliação sobre o avanço do sistema, a cientista física do Centro de Previsão Climática da NOAA e líder da equipe de El Niño, Michelle L'Heureux, esclarece que os efeitos climáticos ganham maior dispersão geográfica com a aproximação do encerramento do ano. De acordo com a pesquisadora, as alterações tendem a ser mais limitadas ao longo do verão do Hemisfério Norte, espalhando-se gradualmente pelo restante do planeta nos meses subsequentes.
Michelle L'Heureux relata que impactos imediatos já ocorrem em diferentes continentes. A especialista cita que Indonésia, Filipinas, América Central, partes da África e Índia apresentam chuvas abaixo da média nos últimos meses, enquanto regiões do Chile registram volumes elevados de precipitação.
A cientista destaca que o El Niño permanecerá ativo pelo menos até o outono do próximo ano no Brasil — período correspondente à primavera no Hemisfério Norte —, exigindo acompanhamento constante dos produtores rurais.