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De condenada a fenômeno: como Elize Matsunaga virou sucesso na internet?

O caso Elize Matsunaga, considerado um dos crimes mais emblemáticos da história brasileira, é recontado mais uma vez no streaming. Depois de um documentário, uma série e diversos conteúdos nas redes sociais, agora a Netflix lança, nesta quarta-feira (22), “Elize: Sombras de Uma Mulher”, filme que propõe contar como a enfermeira chegou ao ponto de matar e esquartejar o marido, um executivo de uma das maiores empresas do ramo alimentício do Brasil.

Roteirizado por Raphael Montes e Mariana Torres, que repetem a parceria de “Beleza Fatal”, o filme promete dar uma nova visão ao caso, com uma pitada de suspense psicológico dramático. O filme da Netflix, estrelado por Lorena Comparato é a quarta produção audiovisual com foco no caso e, como as outras, chamou a atenção não só pela gravidade do crime, mas também por dar mais detalhes sobre a dinâmica do casal e do processo criminal.

É o que explicam os roteiristas, que afirmam que usaram as informações nos autos do processo para compor a história e buscar entregar detalhes da relação do casal, que acabou tragicamente. “Criamos um equilíbrio entre dois tempos narrativos. Antes do crime, de algum modo a gente acompanha os passos da Elize, o passado dela, como ela conheceu o Marcos, como essa relação foi se estabelecendo. E também tem o pós-crime, mostrando como a Elize cometeu um crime muito violento e ainda tentou se livrar do corpo e enganar a família do Marcos”, diz Raphael, ao Band Entretê.

Mariana, inclusive, afirma que o objetivo do filme é de mostrar a complexidade do relacionamento entre Marcos e Elize. “Foi necessário criar a intimidade do casal, respeitando os acontecimentos reais. A gente tentou não apagar as contradições tanto da Elize quanto do Marcos. Foi um trabalho muito delicado”, afirma.

Mas com tantas produções sobre um mesmo caso, um fenômeno curioso tem surgido nas redes sociais: pessoas que declararam terem se tornado fãs e admiradoras de Elize Matsunaga. É o caso da página @apoioelizematsunaga, no Instagram, que reúne apoiadores e pessoas que defendem não só o recomeço de vida dela, mas também dizem compreender os motivos que a fizeram cometer o crime.

Crimes como de Elize viraram ‘novela’ para o público

Também nas redes sociais, o crime chegou a virar meme antes da partida entre Brasil e Japão, pela Copa do Mundo. Torcedores afirmavam que a Seleção Brasileira faria o mesmo que Elise fez com Marcos, descendente de Japoneses.

Este fenômeno cada vez mais recorrente nas redes sociais, para o psicanalista Christian Dunker, é mais um efeito da instrumentalização do ódio e da espetacularização de crimes, o que já ocorre desde o século XX. “As redes sociais reforçam a 'agressivização', o ódio, que engaja, paga mais. Então há as engrenagens que tiram o pior de cada pessoa, até concordar com um crime brutal”, diz.

Com a exploração do assunto à exaustão na mídia, psicólogos e psicanalistas como Christian Dunker, ouvidos pelo Band Entretê, avaliam que o assunto se torna algo mais próximo do entretenimento do que noticioso. É o que explica a psicóloga Flávia Albuquerque, do @despatologiza.

“Quando você transforma uma pessoa real numa personagem, é quase inevitável que parte da audiência passe a torcer por ela. Não é que as pessoas mudaram por dentro; é que a forma como a história é contada mudou, e essa forma é desenhada para gerar engajamento”, afirma Flávia, que ainda cita que, por conta da exploração do tema, há uma banalização do crime cometido por Elise. “Me parece um sintoma de exposição excessiva que, a certa altura, anestesia e banaliza qualquer assunto, transformando até tragédia em conteúdo”, diz Flávia.

A partir de que ponto saímos da humanização para a banalização do crime, de algo grave? [...] A gente precisa humanizar, porque toda pessoa tem o direito de corrigir os erros. Mas isso é uma minúcia que a internet não consegue alcançar - Christian Dunker.

Michel Petrella, psicanalista do Grupo Reinserir, afirma que casos como o de Elize Matsunaga se tornaram novela e, por isso, seria motivo de tanto fascínio pelo público brasileiro. “A pessoa vai se tornando além de autora de um homicídio, um personagem construído. A violência passou a circular segundo a mesma lógica que organiza o entretenimento contemporâneo”, avalia.

O psicanalista ainda afirma que há um esvaziamento do sentido original do crime, que há 14 anos era considerado repulsivo pela população. “O foco não é sequer lembrar da vítima. Muitas pessoas conhecem memes, frases ou trechos de entrevistas relacionados a determinados crimes, mas já não lembram quem foi a vítima ou em que circunstâncias o caso ocorreu”, pontua. Para Michel, há uma remodelação dos fatos para que os casos continuem sendo vendidos pela indústria cultural.

Fascínio pelo true crime e casos como de Elize não nasceram com a internet

O caso Elize Matsunaga ocorreu em 2012, ainda na popularização das redes sociais, ou seja, virou um assunto de grande repercussão nacional por conta das mídias tradicionais. Os psicanalistas apontam que esse interesse do público por assassinos não surgiu com a internet e, sim, são intrínsecos do ser humano.

“Basta lembrarmos da literatura policial, dos folhetins do século XIX, da cobertura de grandes assassinatos no século XX. A novidade é que há uma indústria dedicada a prolongar a vida dessas histórias. Viram documentários, podcasts, entrevistas inéditas”, explica Michel Petrella.

O interesse é tão antigo que a atração por criminosos tem um nome que provém da Grécia Antiga: hibristofilia. A híbris, segundo a mitologia grega, era o ato de um mortal tentar desafiar os deuses. Para Christian Dunker, Elise estaria desafiando o poder, o que pode ter gerado apreço por parte da população. “Veja que valorizamos quem ultrapassa os próprios limites, que o ‘cara legal’ é quem quebra regras, supera um desafio, veja como isso cai na figura do criminoso”, explica.

Mariana Torres, roteirista do filme da Netflix, reforça esse pensamento. “O fascínio por histórias de crime e perfil de criminosos é tão antigo quanto a capacidade humana de contar histórias. Histórias de crime nos forçam a nos confrontar com perguntas que normalmente evitamos, sobre até onde uma pessoa pode chegar, sobre o que nos separa de quem comete atos extremos. Até onde o outro, que é meu semelhante, vai?”, avalia.

Raphael Montes, roteirista do filme de Elize, pensa que o interesse surge porque crimes do tipo são “intrinsecamente humanos”. “Só os seres humanos cometem crimes de homicídio por motivos como inveja, ciúme, raiva, racismo, homofobia. Acho que o interesse e a curiosidade vem em se conhecer, entender como alguém aparentemente normal chega a algo tão extremo e violento”, diz.

Enquanto roteiristas defendem obra, promotor do caso vê problemas em obras sobre Elize

O filme, que estreia nesta quarta-feira (22), promete trazer ainda mais detalhes sobre a vida de Elize Matsunaga, mas em uma obra ficcional. José Carlos Cosenzo, promotor de Justiça que atuou no caso Elize Matsunaga, chegou a ser convidado para conversar com os atores, mas conta ao Band Entretê que prefere se afastar de novas produções do tipo.

“Alguns vieram conversar, pedir para eu falar com o pessoal. Eu falei que eu não poderia, porque para mim seria incoerente conversar com os atores e, depois, sair uma versão diferente”, afirma.

Para Cosenzo, filmes como o da Netflix estão “suavizando” a gravidade do crime, o que seria ruim para a sociedade. “Um fato dessa natureza poderia ser um paradigma para não acontecer mais. Mas vira piada, meme, brincadeira, filme, você banaliza”, avalia o promotor, que entende que a obra pode “transformar em inocente uma pessoa que foi a vilã”.

Você está modificando os fatos de uma forma muito ruim e tem efeitos em todos os casos. Primeiro, você volta a ofender a memória da vítima. Você volta a mostrar para a família que não foi uma grande perda isso daí. Você vai mostrar para a sociedade que uma vingança nesse sentido, ela é bem-vinda, e não pode - José Carlos Cosenzo.

Cosenzo até cita a filha do casal, que perdeu o pai de forma brutal e viu a mãe ser presa. Para ele, esse tipo de conteúdo é preocupante porque pode atingir a menina. “Não é decente. Você influencia a vida de outra pessoa, que é uma criança. Imagina? É abominável ver brincadeiras, filmes desse sentido, é absurdo”, diz.

Apesar de afirmar que o filme e outras obras ‘suavizam’ o crime de Elize Matsunaga, os roteiristas afirmam que tiveram cuidado com os envolvidos no caso e que não consultaram Elize ou a procuraram para a produção da obra. “A gente se preocupou durante a escrita dos roteiros, eu e a Mariana Torres, e vejo que tiveram esse cuidado na realização do filme”, diz Raphael Montes.

Crimes como de Elize não podem ser resumidos a mal ou bem

Um dos fatos que transformou a percepção de parte do público sobre o caso Elize Matsunaga foi o histórico de violência física e psicológica que ela sofreu antes do assassinato de Marcos Matsunaga. Christian Dunker aponta que com o fato, há o pensamento de que Elize tenha feito “justiça com as próprias mãos”.

“A gente dá vazão para as instituições que a gente acha que não fazem o certo. Então o que se faz? Justiça com as próprias mãos e isso se conecta com a Matsunaga, que há quem pense que ela ‘vingou todas as mulheres’”, pontua. Mas esse tipo de pensamento, para o psicanalista, não vê o caso com toda a complexidade que ele tem.

Tanto que, para o promotor José Carlos Cosenzo, é preciso ser prático ao olhar para o caso Matsunaga. O promotor afirma que apesar da violência doméstica, o que se foi julgado foi o crime, não o contexto. “É uma situação que não se estabelece se a pessoa é ruim ou não. Se você pega um pastor, uma freira, essa pessoa poderia cometer o crime que quisesse e se julgar o passado, nunca seria condenada”, avalia.

Já Mariana Torres, roteirista do filme, prefere ver Elise como alguém ambígua, como foi o relacionamento do casal até o crime. “A história do casal também perpassa por temas comuns a muitos casais: a paixão inicial, as expectativas, a dificuldade de engravidar, a dor e revolta pela descoberta de uma traição. A ideia é justamente mostrar as ambiguidades dessa mulher, sem justificar o crime”, explica.

Para a psicóloga Flávia Albuquerque, a ideia de ‘mudar de lado’ ao saber deste fato é negar a complexidade do caso. “Quando a gente psicologiza o criminoso, quando reduz tudo a "ela era boa" ou "ela era má", a gente apaga exatamente essas camadas, que são as que de fato ajudariam a compreender, e eventualmente a prevenir, situações como essa”, avalia.

O problema, segundo Flávia, é inverter o polo de “vilã pela heroína”. “O caminho mais honesto não é escolher entre condenar e absolver, é recusar essa simplificação e insistir que um crime é sempre um fenômeno humano e social, nunca só o retrato de uma alma”, pontua.

Uma sociedade que transforma suas tragédias em produto perde, aos poucos, a capacidade de aprender com elas. E talvez o antídoto não seja condenar nem idolatrar ninguém, e sim recuperar a disposição de olhar para esses casos com a complexidade que eles exigem - Flávia Albuquerque.

A Band foi atrás das defesas de Elize Araújo e da família de Marcos Matsunaga para comentar o lançamento do filme. Caso haja um posicionamento, a matéria será alterada.

Fonte: Band.
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