O avanço dos medicamentos antiobesidade à base de análogos de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, provoca uma transformação profunda nos hábitos de consumo das famílias e na economia global.
Estudos recentes apontam que a redução do apetite provocada por esses tratamentos altera diretamente a cesta de compras, enquanto gigantes da indústria farmacêutica travam uma disputa bilionária pelo domínio de um mercado em expansão.
Um levantamento conduzido pelo SC Johnson College of Business, da Universidade Cornell, em parceria com a empresa de inteligência de mercado Numerator, analisou o comportamento de compras de 150 mil famílias americanas.
Os dados revelam que lares com pelo menos um usuário dessas medicações registram uma queda média de 5,3% nos gastos totais em supermercados em um período de seis meses. Em famílias de alta renda, esse recuo chega a até 8,6%.
A retratação no consumo atinge principalmente alimentos ricos em açúcar e ultraprocessados. O levantamento da Cornell aponta retração nas compras de salgadinhos e snacks (-10,1%), além de queda nos gastos em fast food e cafeterias (-8,0%). Em contrapartida, itens como iogurtes, frutas e proteínas apresentam crescimento nas vendas, refletindo a busca por saciedade e qualidade nutricional.
Outra pesquisa, realizada pela consultoria McKinsey & Company, confirma a velocidade com que as famílias readequam seus orçamentos após o início do tratamento.
As maiores reduções de gastos ocorrem em categorias como chips e salgadinhos (-11,5%), doces (-8,5%), molhos de salada (-7,4%), queijos (-7,2%) e biscoitos (-7,0%). Segundo o estudo, o orçamento poupado com alimentação é frequentemente redirecionado para custear a própria medicação, além de investimentos em saúde, academias, cosméticos e vestuário.
Disputa farmacêutica e o impacto no mercado global
A expansão desse mercado também reconfigura o cenário corporativo. Uma análise da revista The Economist aborda a transição de forças na indústria farmacêutica, com destaque para a consolidação da americana Eli Lilly sobre a dinamarquesa Novo Nordisk.
Projeções de mercado indicam que a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro e Zepbound, pode capturar mais de 50% do mercado global de tratamentos para obesidade até 2030, impulsionada pela eficácia média de sua molécula.
A projeção é de que o setor movimente de US$ 80 bilhões a US$ 100 bilhões anuais até o final da década. Juntas, Eli Lilly e Novo Nordisk devem reter cerca de 90% das fatias desse segmento nos próximos anos, resguardadas por patentes.
O principal entrave atual do setor não reside na demanda, mas na capacidade de fabricação e montagem de canetas aplicarilhas em larga escala.
A próxima fase da competição prevê o desenvolvimento de medicamentos em versão oral. A transição das injeções para comprimidos reduz custos de produção e amplia o acesso a usuários que buscam conveniência.
Em observações na BandNews TV, Eduardo Oinegue ressaltou a magnitude com que o fenômeno ultrapassa a área da saúde, redefinindo estratégias de negócios em setores que vão da aviação comercial às seguradoras e à indústria alimentícia.